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Data de Publicação: 12/02/2010  

O avanço da nova classe média

Um grupo de 98 milhões de brasileiros quer consumir os mesmos itens que a classe alta. Para isso, busca crédito e formação.
De acordo com o cientista político Amaury de Souza, a preferência dos entrevistados em adquirir eletrodomésticos, investir em móveis novos, contratar planos de saúde, colocar os filhos em escolas privadas ou investir na caderneta de poupança mostra que essa camada da população já está se tornando classe média.
Nos últimos cinco anos, o poder de consumo da nova classe média brasileira (classe C), responsável por 46% da renda nacional, tem crescido cerca de 9% ao ano. Para esse grupo de pessoas, o financiamento de bens duráveis como automóveis, eletrodomésticos, viagens e até da casa própria é uma alternativa que possibilita o mesmo conforto percebido pela classe A, mas com um grau de endividamento semelhante ao das classes D e E. De acordo com o livro "A classe média brasileira", lançado ontem pelos cientistas políticos Amaury de Souza e Bolívar Lamounier com apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI), esse grupo da população corresponde hoje a 98 milhões de pessoas. No estudo, foram avaliadas famílias com rendas mensais entre R$ 1.115 e R$ 4.807. E elas não medem esforços para consumir. No caso dos televisores, por exemplo, a adesão é próxima de 100% em todas as classes sociais. Já bens como geladeira, rádio, aparelho de DVD e lavadora de roupas estão presentes de forma semelhante nos dois estratos sociais, enquanto as classes menos abastadas (D e E) permanecem sem condições de comprar tais mercadorias. Planos – Nos próximos 12 meses, 53% dos entrevistados pretendem adquirir eletrodomésticos e 51% irão investir em móveis novos. Outros gastos prioritários são com plano de saúde (40%), filhos em escolas privadas (30%) e investimentos em poupança (32%). Segundo os autores do livro, esse é o principal sinal de que a classe C deixa de ser baixa e começa a ser média. "As pessoas desse grupo estão copiando o consumo da alta renda e isso só é possível graças ao crédito. A nova classe vem se formando desde o início do Plano Real, que acabou de vez com a inflação. Naquela época, só era possível comprar automóveis à vista, coisa que hoje se consegue em até 60 prestações ", diz Amaury de Souza. Na análise da ascensão da classe C, a dúvida central é a da sustentabilidade. Até que ponto o público da nova classe média vai continuar consumindo? Ao avaliar o endividamento por renda, o cientista político percebeu um retrato preocupante, diferente ao das compras: no quesito inadimplência, a classe C se afastou da A/B e se aproximou da D. Do total, 34% dos entrevistados da nova classe média afirmaram que precisaram se endividar para cobrir gastos nos últimos 12 meses. Na classe média baixa esse índice chegou a 35%. Entre os de maior renda, o número caiu para 21%. Já 46% do grupo pertencente à classe C teve dificuldade de pagar compras a crédito. Na classe D, o valor foi de 50% e na A/B, de 19%. Segundo Lamounier, outra questão diz respeito ao empreendedorismo, que esbarra em obstáculos reais, principalmente no caso da classe C. "Muitas vezes, por falta de opção, essas pessoas acabam abrindo um negócio informal. A dificuldade de conseguir o crédito necessário e as exigências burocráticas excessivas impossibilitam o crescimento da empresa e, consequentemente, da renda". Assim, as oscilações da renda familiar geradas por atividades próprias e pouco estáveis sinalizam dificuldades para a manutenção do consumo desejado. As famílias situadas nesse patamar andam lado a lado com um risco de inadimplência constante. O maior medo do público da nova classe média é perder o padrão de vida que tem hoje (50%); ficar sem trabalho, perder o emprego ou ter que fechar o negócio (48%) e não ter dinheiro o suficiente para se aposentar (47%). "No entanto, essa fatia da população continua ávida por atingir o nível de conforto que a classe alta tem. Para alcançar o mercado de trabalho que paga mais, a classe C está buscando cursos técnicos. E, aos poucos, está conseguindo melhorar. Hoje, já corresponde a 35% de toda a população brasileira", diz Lamounier.

Por: Vanessa Rosal

 

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