O chamado Projeto Ficha Limpa, aquele que inviabiliza a candidatura de pessoas condenadas pela Justiça, deverá ser votado amanhã pelo plenário da Câmara Federal em regime de "urgência urgentíssima". Para que seja aprovado, 257 deputados terão de ser favoráveis em votação nominal aberta. Existe a possibilidade de a votação do mérito ficar para quarta-feira, se a urgência for aprovada. "O Ficha Limpa vai determinar uma melhoria na qualidade política do Congresso", aposta Francisco Whitaker, um dos integrantes do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), responsável pela proposta original que recebeu até agora 1,7 milhão de assinaturas e o apoio de 2 milhões de internautas. "A pressão da sociedade como um todo foi fundamental. Nós vamos criar coragem para fazer outras sugestões com maiores possibilidades de serem aceitas", diz Whitaker. O Ficha Limpa é um entre tantos outros exemplos de como a revolução ocorrida na tecnologia da informação nas duas últimas décadas mudou e tem mudado a relação dos políticos com os cidadãos. A avaliação é do professor de Ciências Políticas Francisco Ferraz, ex-reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pós-graduado em Ciências Políticas pela Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, e responsável pelo portal Política para Políticos (www.politicaparapoliticos.com.br). "O computador, o telefone celular e a televisão a cada dia permitem novos modelos de comunicação", afirma Ferraz. "A política mudou e quem não entender está completamente fora do jogo", acrescenta. "O eleitor não tem mais tempo de processar tudo. O político tem de encapsular a mensagem. Não se faz mais comício, a comunicação tem que ser televisiva. A mensagem tem que ser curta, concisa, expressiva e conclusiva." Ferraz recorda que o atual eleitor, desde criança, já assistia à televisão. "É o calmante para as inquietudes daquele período de vida, como é um dos responsáveis pela crise nas escolas", assegura. Essas novas ferramentas são usadas por outro movimento, o do Voto Consciente (www.votoconsciente.org.br), uma organização não-governamental que surgiu em 1987 quando um grupo de pessoas decidiu trocar a angústia e a indignação pela ação efetiva. As ações surgidas na internet abriram espaço para que esse grupo pudesse ampliar seu espaço. Tanto que hoje se reúne dentro da Câmara Municipal de São Paulo, onde acompanha o trabalho dos vereadores, está atuando na Assembleia Legislativa de São Paulo e tem vários núcleos e parcerias com outras entidades em várias cidades do Brasil. "Antes as pessoas não sabiam o que se fazia nessas casas, e agora o cidadão está começando a entender como funciona e a partir disso, vai exigir cada vez mais", acredita Celina Marrone, coordenadora do grupo que, aos 72 anos, é voluntária em tempo integral. O grupo coloca à disposição dos eleitores na internet a ficha de candidatos a cargos eletivos e ainda avalia a atuação de vereadores e deputados. "O segredo é a informação", explica Celina. A coordenadora do movimento assegura que é preciso que dentro desse sistema político o povo tome posse. "A população está amadurecendo e começa a entender que o político não faz favor a ninguém. Que você é o patrão dele". Para esta eleição, o Voto Consciente vai propor a todos os partidos que seus candidatos preencham as fichas do movimento. "O eleitor não tem a obrigação de saber se o candidato é um estuprador", diz Celina. "Por que os partidos não têm bons políticos? Porque o interesse é apenas o dinheiro", responde. Ou trata ou morre – Mas essa situação tende a sofrer um forte revés. Para a doutora Rita de Cássia Biason, professora do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp), as mudanças que vão ocorrer no Brasil não serão apenas de logística, de infraestrutura. "O que vai entrar na agenda do brasileiro nos próximos anos é o que chamo de 'pacote da modernidade'; e nesse pacote entram questões como financiamento de campanha, punição de agentes corruptos e prestação de contas dos políticos." Estudiosa da corrupção no País há 15 anos, Rita compara o modelo espanhol com o que ocorre no Brasil. "É muito parecido, e os espanhóis precisaram se modernizar. Eles tinham problemas idêntico aos nossos. Portugal também. Então, para preservar o crescimento, a entrada no Mercado Comum Europeu, precisaram se adequar." "Mas o Brasil não pleiteia a entrada no mercado europeu!", questionam. "Não, mas vai realizar a Copa de 2014, os Jogos Olímpicos de 2016. E o custo desta modernização será também uma adequação daquilo que queremos." Para Rita, "não vai ser mais possível colocar um pé no coronelismo e o outro pé aqui. Cada vez mais as denúncias vão aumentar, e não é por que vai vender mais jornal ou revista. É como se fosse o limite do colesterol. Ou se trata ou morre". Também será preciso, dentro desse novo mapa que se configura nas ruas de paralelepípedos, de asfalto, esburacadas ou nos caminhos virtuais do Google, que o político deixe de ser a força do partido. "Quando a lógica se modificar, quando o partido for a força e o político sua decorrência", Rita acredita que não se ouvirá mais declarações como aquelas dadas no dia 13 de maio do ano passado pelo deputado federal Sergio Moraes (PTB-RS) de que estava se lixando para a opinião pública. Para que situações dessa natureza deixem de ser rotineiras, o MCCE aposta que a aprovação do projeto Ficha Limpa vai melhorar a qualidade da representação. "Creio que teremos pessoas capazes de votar assuntos mais complexos, como a reforma política. Creio que o legislador de causa própria esteja com os dias contados", diz Francisco Whitaker. O político, lembra Francisco Ferraz, não tem o hábito, pela natureza de sua função extremamente dispersiva, de muita pressão sobre ele, de se atualizar. Daí a necessidade de se estabelecer novos parâmetros de atuação. "Uma campanha moderna nos dias atuais não é feita pelo partido, mas por um grupo de pessoas especializado e não necessariamente partidário. São esses profissionais que vão traçar a estratégia de campanha. Ao partido fica o trabalho de campo".
Décio Viotto